Educação, cultura e arte
Silvio é diretor do Espaço
Humanitas, onde ministra curso de educação pela leitura dos clássicos e
consultor do sítio Aristoi, empenhado
em ser guia para a educação liberal no Brasil bem como em lançar livros
sobre educação que faltam nas prateleiras de nossas livrarias. Antes de
iniciar a leitura da entrevista, é preciso saber que educação liberal tem o
mesmo significado de educação clássica, qual seja, formar o aluno pela
leitura das grandes obras do gênio humano a fim de que ele consiga se situar
frente às discussões de sua época e participar delas se o desejar.
1. Qual a sua formação intelectual?
Em primeiro lugar, devo dizer que ainda estou me formando intelectualmente e
que a educação liberal é um programa de aprendizado para durar toda a vida.
Sou formado em ciências sociais pela Universidade de São Paulo, mas não
saberia dizer em que medida o curso foi importante na minha formação. Quase
todos meus interesses, durante e depois da graduação, devem-se a influências
estranhas ao currículo regular de um estudante de ciências sociais, com exceção
talvez do meu grande interesse pela sociologia da religião.
Quando estava no segundo ano de faculdade, o Embaixador José Osvaldo de Meira
Penna enviou-me seu livro O Dinossauro, uma análise da cultura brasileira
desde um ponto-de-vista liberal, que era uma perspectiva ausente no meu curso.
Depois de ler esse livro, mergulhei nos clássicos do liberalismo,
principalmente em Ludwig von Mises, Friedrich Hayek, Milton Friedman e Roberto
Campos. Meu interesse nesses autores, porém, não era tanto a economia política,
mas a possibilidade de sintetizar suas teorias com os insights dos grandes
interpretes do Brasil - Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e
Raymundo Faoro – seguindo assim os passos dados pelo próprio Meira Penna.
Estive enfiado nesses assuntos até dois anos atrás, quando minha atenção
voltou-se quase toda para problemas ligados à educação.
À mesma época, li O Imbecil Coletivo, do filósofo Olavo de Carvalho, vários
de seus textos e apostilas e passei a freqüentar algumas de suas aulas e
palestras. O contato com Olavo foi decisivo na minha formação. Com ele
descobri um universo intelectual até então desconhecido, cheio de vida e
completamente diverso daquele que eu experimentava na USP. Descobri também quão
miseravelmente ruim era a educação que eu havia recebido durante esses anos
todos. Felizmente, junto com essa última descoberta veio outra, a de que era
possível, por meio da educação liberal, remediar os danos. Então, sob
influência do Olavo, comecei a estudar e praticar os exercícios de leitura
de Mortimer Adler, adaptando seu método e programa às minhas circunstâncias.
2. Como surgiu o projeto de criação do sítio Aristoi?
A coisa toda foi idéia do Lucas Mafaldo e é ele na verdade o responsável
pelo projeto. Naquela época, nós vínhamos conversando muito a respeito de
educação liberal e, cientes de sua importância, concluímos que seria uma
boa idéia montar um site para divulgá-la no Brasil. De um simples grupo de
divulgação da educação liberal, o Lucas resolveu fazer do Aristoi uma
editora voltada para a publicação de livros importantes à formação
intelectual e para o estabelecimento de uma cultura conservadora no país.
Um empreendimento como esse é absolutamente indispensável para a cultura
brasileira, mas infelizmente ele vem esbarrando numa série de empecilhos
burocráticos, financeiros e logísticos. O Lucas pretende livrar-se desses
problemas levando o Aristoi para São Paulo, onde provavelmente encontrará
mais apoio, e ultimamente tem dedicado-se quase exclusivamente a essa mudança.
3. Você e Lucas Mafaldo organizaram grupos de leitura e discussão dos clássicos.
Qual o procedimento que você utiliza para debater os livros? Sendo mais específico,
você ministra uma palestra inicial sobre o enredo do livro e em seguida propõe
perguntas para os alunos? Em suma, como a aula é preparada?
O que eu descobri no pouco tempo em que tenho ministrado cursos de educação
liberal é que não existe uma receita aplicável a todos os casos, cada turma
tem um ritmo diferente, necessidades e dificuldades diversas. Eu procuro
seguir metodologia utilizada por Adler nos seminários do Aspen Institute,
fazendo as adaptações necessárias para cada turma.
O núcleo dessa metodologia consiste na leitura individual do livro em casa e
em encontros de leitura em grupo. Esses encontros de leitura funcionam da
seguinte maneira: na primeira parte da aula, os alunos lêem trechos
selecionados da obra e são incentivados a recontar a história tal qual ela
aparece no livro; na segunda parte, com a obra ainda viva na memória, conduzo
aquilo que Adler chama de seminário socrático, ou seja, a partir de algumas
perguntas tento fazer com que o aluno reflita sobre o que foi lido. Essa divisão
em duas partes corresponde às duas preocupações que orientam todo meu
trabalho: certificar-me que o aluno compreendeu o que leu e fazer com que a
compreensão da obra se torne um instrumento de autoconhecimento e reflexão
sobre questões humanas fundamentais.
4. Li sua entrevista no sítio Espaço Humanitas, onde agora você ministrará
o curso de educação pela leitura dos clássicos. Além do diálogo Apologia
de Sócrates, de Platão, notei que nenhum outro livro de filosofia está no currículo.
Você crê que a melhor maneira de iniciar uma educação é incentivar a
imaginação moral do aluno para só então abordar questões filosóficas?
Sim. Estou convencido de que a educação liberal proposta por Adler é
excelente, mas percebo que lhe faltava uma teoria pedagógica que orientasse
de maneira mais clara as etapas do estudo. Encontrei essa pedagogia na teoria
dos quatro discursos de Olavo de Carvalho, apresentada em Aristóteles em Nova
Perspectiva: Introdução a Teoria dos Quatro Discursos. No livro, Olavo não
está preocupado com uma pedagogia, mas suas teses podem ser aplicadas à
educação com grande proveito. Para entender melhor o que é essa teoria dos
quatro discursos, recomendo a leitura deste
texto.
Eu acredito que toda educação deve começar oferecendo ao estudante os símbolos
e imagens, o universo mito-poético, que são o fundamento da cultura. Essas
imagens são a matéria-prima de toda as idéias e pensamentos e podem ser
acessadas, como discurso, nas grandes obras de arte, nos clássicos da
literatura e nas tradições religiosas. O discurso poético, aquele que está
na base dos quatro discursos, tem como objetivo alimentar a imaginação, para
que ela depois seja trabalhada pelos discursos retórico, dialético e analítico.
A discussão filosófica apresenta-se, quase sempre, no nível dialético,
operando a matéria-prima fornecida pelo discurso poético, sem o qual ela é
apenas um palavrório sem sentido. É como nosso sistema digestivo: quando você
come algo, seu organismo digere aquilo, absorve os nutrientes, as coisas que
lhe fazem bem e elimina o resto, mas quando seu organismo faz a digestão sem
que haja alimento no seu estômago, o que você ganha é uma úlcera.
A Apologia de Sócrates, que eu sempre escolhe como o primeiro da lista,
apesar de ser um livro da tradição filosófica, é uma obra com potencial
mito-poético excepcional. Ela mostra a essência da vida intelectual não
através de teorias e discussões dialéticas, mas pela narrativa da vida e
morte de Sócrates. E no final das contas, nada mais fazem os filósofos senão
discutir e tentar compreender essa narrativa.